segunda-feira, 19 de julho de 2021

ALOHA! (texto para #domestika)




21 de novembro de 2019. O mar parece calmo e James, detido na maturidade dos seus 41 anos, está sentado na prancha de surf com as pernas e os pés mergulhados na água. “Vem aí o sete!” - grita um dos surfistas ao longe. Esta frase desperta a atenção do James que encosta o peito na prancha e ataque o mar com fortes braçadas.

No percurso para a batalha com o mar, fazendo lembrar os tempos antigos em que os barcos se moviam pela força dos escravos ao som do tambor, James sente o nascer de uma torre de água na sua retaguarda que o empurra ignorando o seu remar. Com um movimento, ele faz o stand up e sente na face as gotas salgadas enquanto faz a manobra que o obriga a virar para a direita da onda. A adrenalina corre-lhe nas veias com a mesma velocidade que navega sobre o mar.

Ao longe, mas já bem perto, James avista uma rocha que é como uma imperfeição numa obra de arte ou como uma nota fora de tom num espetáculo de música, mas ao mesmo tempo é uma parte do enredo da emoção que tudo isto lhe provoca.

No segundo seguinte, sente-se embrulhado no manto azul que o aconchega e ouve o estalar da prancha a embater na rocha.

 

Duas horas antes…

James costuma ser dos primeiros a chegar à praia. Nesse dia, quando chega à praia, ainda é noite. São 6 da madrugada e consegue-se ouvir ao longe o barulho das ondas a bater na areia.

A par disso, sente-se o silêncio no areal e o cheiro intenso da maresia. Num suspirar, James consegue renovar todo o oxigénio que lhe corre no sangue. O prazer é tanto que os pulmões são pequenos para a quantidade de ar que ele quer inspirar.  

Com os primeiros raios de sol do dia, James veste a armadura de combate que o deixa bastante desconfortável quando se funde com a pele.

A prancha de surf do James é uma longboard 9.2 adequada para um surf clássico, como se fazia nos anos 60 na Califórnia. Não tem desenhos, nem pinturas de guerra e destaca a longarina em madeira que percorre o deck até ao nose. Do lado esquerdo tem um logotipo redondo, com pouco mais do que 15 cm de diâmetro, que estampa o azul e o vermelho sobre a cor pérola da prancha. É uma prancha em epóxi, áspera no toque, mas regular no designe. Tem apenas uma quilha onde tem desenhadas flores azuis que fazem lembrar as camisas dos havaianos.

No surf, a prancha é o altar e os pés são a superfície de contato com este mundo de adrenalina e emoção que amortecem esta ligação quase umbilical.

Ainda antes de completar 6 anos, James andava sempre de chinelos, não conseguia sentir o paralelo das estradas, a areia dos caminhos e a terra dos campos. Quando isso acontecia, sentia como se estivessem a espetar alfinetes nos pés. Por esse motivo, passou anos a protegê-los como se soubesse que um dia isso lhe seria útil.

 

***

 

Em 1991 foi lançado o filme Point Break com Keanu Reeves e Patrick Swayze. O enredo do filme resumia-se a um grupo de surfistas, liderado por Patrick Swayze, que mascarados de ex-presidentes da América, onde se destacava a máscara do Nixon, assaltavam bancos. No âmbito da investigação a este caso, um agente do FBI, Keanu Reeves, tinha de se infiltrar no grupo de surfistas, o que o obrigava a aprender a surfar. Quando o Keanu Reeves entra a primeira vez numa loja de surf, para comprar o material e iniciar a autoformação, é atendido por um adolescente, que ao saber que ele tinha 25 anos lhe diz, mais ou menos isto, “não acha que é um bocadinho velho para aprender a surfar?!”. Nessa altura, James tinha 15 anos e achava que ainda estava a tempo de tudo, até mesmo de aprender a surfar, mas os anos foram passando sem se atrever a lançar-se neste desporto.

Kurt, o filho mais velho do James, organizou uma aula de surf com os amigos para festejar o seu 12º aniversário, que adorou. Depois disso, inscreveu-se numa escola de surf e investiu as suas poupanças na compra do fato e da prancha de surf.

Religiosamente, todos os domingos, James levava o Kurt às aulas de surf. Aproveitava essas manhãs para fazer o jogging pelas areias de Santa Cruz. Ao final da manhã, James sentava-se na areia da praia e assistia ao final da aula de surf de Kurt e às emoções que o filho vivia.

Após alguns meses desta rotina domingueira, James perguntou “há um fato de surf para mim?! Gostava de experimentar”. E assim ficou o compromisso, como se de um contrato de sangue se tratasse, para colocar em prática o sonho de um adolescente de 1991.

Depois disso, foi a vez do Jimmy, filho mais novo do James, e de Janis a sua esposa. Todos aderiram ao surf e começaram a viver semanalmente as emoções deste desporto.

Se motivo houvesse para James não se ter iniciado a prática do surf mais cedo, talvez fosse o facto de ter esperado por ter uma família, uma tribo, para juntos entrarem neste modo de vida.

 

***

Após alguns segundos, que lhe pareceram horas, James saiu dos cobertores de espuma e conseguiu nadar até à prancha. “Ar, sinto o ar quando respiro”, pensou e recuperou a segurança que havia perdido por momentos.

De volta à areia da praia, James faz um rewind do que tinha acabado de acontecer e percebe, então, que é tudo normal e faz parte do processo.

James avança para o mar e procura a próxima onda, a próxima aventura.

 

Fim

jPCruz

ALOHA! (texto para #domestika)

21 de novembro de 2019. O mar parece calmo e James, detido na maturidade dos seus 41 anos, está sentado na prancha de surf com as pernas e o...