21 de novembro de 2019. O mar parece
calmo e James, detido na maturidade dos seus 41 anos, está sentado na prancha
de surf com as pernas e os pés mergulhados na água. “Vem aí o sete!” - grita um
dos surfistas ao longe. Esta frase desperta a atenção do James que encosta o
peito na prancha e ataque o mar com fortes braçadas.
No percurso para a batalha com o mar,
fazendo lembrar os tempos antigos em que os barcos se moviam pela força dos
escravos ao som do tambor, James sente o nascer de uma torre de água na sua
retaguarda que o empurra ignorando o seu remar. Com um movimento, ele faz o stand
up e sente na face as gotas salgadas enquanto faz a manobra que o obriga a
virar para a direita da onda. A adrenalina corre-lhe nas veias com a mesma velocidade
que navega sobre o mar.
Ao longe, mas já bem perto, James
avista uma rocha que é como uma imperfeição numa obra de arte ou como uma nota
fora de tom num espetáculo de música, mas ao mesmo tempo é uma parte do enredo
da emoção que tudo isto lhe provoca.
No segundo seguinte, sente-se embrulhado
no manto azul que o aconchega e ouve o estalar da prancha a embater na rocha.
Duas horas antes…
James costuma ser dos primeiros a
chegar à praia. Nesse dia, quando chega à praia, ainda é noite. São 6 da
madrugada e consegue-se ouvir ao longe o barulho das ondas a bater na areia.
A par disso, sente-se o silêncio no
areal e o cheiro intenso da maresia. Num suspirar, James consegue renovar todo
o oxigénio que lhe corre no sangue. O prazer é tanto que os pulmões são
pequenos para a quantidade de ar que ele quer inspirar.
Com os primeiros raios de sol do dia,
James veste a armadura de combate que o deixa bastante desconfortável quando se
funde com a pele.
A prancha de surf do James é uma
longboard 9.2 adequada para um surf clássico, como se fazia nos anos 60 na
Califórnia. Não tem desenhos, nem pinturas de guerra e destaca a longarina
em madeira que percorre o deck até ao nose. Do lado esquerdo tem um
logotipo redondo, com pouco mais do que 15 cm de diâmetro, que estampa o azul e
o vermelho sobre a cor pérola da prancha. É uma prancha em epóxi, áspera no
toque, mas regular no designe. Tem apenas uma quilha onde tem desenhadas flores
azuis que fazem lembrar as camisas dos havaianos.
No surf, a prancha é o altar e os pés
são a superfície de contato com este mundo de adrenalina e emoção que amortecem
esta ligação quase umbilical.
Ainda antes de completar 6 anos, James
andava sempre de chinelos, não conseguia sentir o paralelo das estradas, a
areia dos caminhos e a terra dos campos. Quando isso acontecia, sentia como se
estivessem a espetar alfinetes nos pés. Por esse motivo, passou anos a
protegê-los como se soubesse que um dia isso lhe seria útil.
***
Em 1991 foi lançado o filme Point
Break com Keanu Reeves e Patrick Swayze. O enredo do filme
resumia-se a um grupo de surfistas, liderado por Patrick Swayze, que
mascarados de ex-presidentes da América, onde se destacava a máscara do Nixon,
assaltavam bancos. No âmbito da investigação a este caso, um agente do FBI, Keanu
Reeves, tinha de se infiltrar no grupo de surfistas, o que o obrigava a aprender
a surfar. Quando o Keanu Reeves entra a primeira vez numa loja de surf,
para comprar o material e iniciar a autoformação, é atendido por um
adolescente, que ao saber que ele tinha 25 anos lhe diz, mais ou menos isto, “não
acha que é um bocadinho velho para aprender a surfar?!”. Nessa altura, James
tinha 15 anos e achava que ainda estava a tempo de tudo, até mesmo de aprender
a surfar, mas os anos foram passando sem se atrever a lançar-se neste desporto.
Kurt, o filho mais velho do James, organizou
uma aula de surf com os amigos para festejar o seu 12º aniversário, que adorou.
Depois disso, inscreveu-se numa escola de surf e investiu as suas poupanças na compra
do fato e da prancha de surf.
Religiosamente, todos os domingos, James
levava o Kurt às aulas de surf. Aproveitava essas manhãs para fazer o jogging
pelas areias de Santa Cruz. Ao final da manhã, James sentava-se na areia da
praia e assistia ao final da aula de surf de Kurt e às emoções que o filho vivia.
Após alguns meses desta rotina
domingueira, James perguntou “há um fato de surf para mim?! Gostava de
experimentar”. E assim ficou o compromisso, como se de um contrato de
sangue se tratasse, para colocar em prática o sonho de um adolescente de 1991.
Depois disso, foi a vez do Jimmy,
filho mais novo do James, e de Janis a sua esposa. Todos aderiram ao surf e
começaram a viver semanalmente as emoções deste desporto.
Se motivo houvesse para James não se ter iniciado a
prática do surf mais cedo, talvez fosse o facto de ter esperado por ter uma
família, uma tribo, para juntos entrarem neste modo de vida.
***
Após alguns segundos, que lhe pareceram
horas, James saiu dos cobertores de espuma e conseguiu nadar até à prancha. “Ar,
sinto o ar quando respiro”, pensou e recuperou a segurança que havia perdido
por momentos.
De volta à areia da praia, James faz um
rewind do que tinha acabado de acontecer e percebe, então, que é tudo normal e faz
parte do processo.
James avança para o mar e procura a
próxima onda, a próxima aventura.
Fim
jPCruz